Henri Rousseau – outra versão.

Nascimento
Morte
2 de setembro de 1910 (66 anos)
ParisVisualizar e editar dados no Wikidata
Sepultamento
Cemitério de Bagneux 
Nome no idioma nativo
Henri-Julien-Félix Rousseau
Cidadania
França Francês
Atividade
Residência
Local de trabalho
Movimento
Área
Pintura
Magnum opus
assinatura de Henri Rousseau assinatura

O sonho, 1910, Óleo sobre tela, 204,5 x 298,5 cm, Nova Iorque.

Henri-Julien-Félix Rousseau (Laval21 de maio de 1844 — Paris2 de setembro de 1910), conhecido também pelo público como o douanier (aduaneiro) por ter trabalhado como inspetor de alfândega, foi um pintor francês inserido no movimento moderno do pós-impressionismo. A sua obra foi pouco apreciada pelo público geral e pelos críticos seus contemporâneos tendo sido constantemente remetida para o grupo da arte naïf e primitivista – pelo seu carácter autodidata, resultado da inexistência de formação acadêmica no campo artístico, pela recusa dos cânones da arte reconhecida até então e pela aparente ingenuidade grotesca.

Henri Rousseau, filho de Julien Rousseau (latoeiro) e Eléonore, vai refletir ao longo da sua vida o insucesso financeiro da sua família e o tormento pela falta de perspetivas resultante desse nível social inferior. A sua vida escolar até 1860 toma lugar em Laval, incluindo a permanência num internato em consequência da vida pouco sedentária que os seus pais se veem obrigados a levar após a falência do negócio do pai.

A Guerra, 1894, Óleo sobre tela, 114 x 195 cm, Paris.

Em 1861 a família estabelece-se em Angres, onde Rousseau trabalhará num escritório de advocacia entre 1863 e 1867. Após roubar 20 francos a este escritório e ser condenado a 1 mês de prisão, Rousseau alista-se voluntariamente no 51º Regimento de Infantaria de Angres para um período de 7 anos, o qual não chegará ao fim por ser dispensado em 1868. Neste mesmo ano o seu pai morre e Rousseau estabelece-se em Paris onde, no ano seguinte, se casa com Clémence Boitard, uma costureira, com quem terá 5 filhos, dos quais 4 morrerão precocemente.

A partir de 1871, e após ter trabalhado como empregado de um oficial de diligências, Rousseau inicia o seu trabalho na alfândega de Paris. Decorridos 19 anos de casamento, Clémence morre vítima de tuberculose e Rousseau volta a contrair matrimônio 10 anos depois, em 1899, com a viúva Joséphine-Rosalie Nourry. Pouco tempo depois, em 1903, morre também a sua 2ª mulher, um ano após Rousseau se tornar professor na Association Philotechnique onde ensina a técnica da pintura em porcelana e de miniaturas.

Rousseau infringe de novo a lei e é sentenciado, em 1909, a 2 anos de prisão com pena suspensa e uma coima de 200 francos por fraude bancária. Morre com 66 anos a 2 de Setembro de 1910 vítima de septicemia.

Caminho paralelo

É difícil precisar o início do seu interesse pela pintura, mas sabe-se, no entanto, que deixa o trabalho de alfândega para se dedicar por exclusivo à arte em 1890. Anterior a esta data Rousseau luta pelo seu destaque como artista, sendo constantemente alvo de críticas aguçadas que o caracterizam de infantil e muito aquém das qualidades representativas que seriam de se esperar de um artista após a época de Monet. No entanto, Rousseau não abdica do seu sonho e tenta aproveitar todas as oportunidades que lhe permitam dar a conhecer a sua arte e, quem sabe, destacar-se por entre os seus contemporâneos, obtendo, assim, o reconhecimento social ao qual tanto aspira.

Passeio na Floresta, c. 1886, Óleo sobre tela, 70 x 60,5 cm, Zurique.

Rousseau afirmou só ter pego num pincel pela primeira vez quando já tinha 40 anos, ou seja, em 1884, mas este fato é de difícil comprovação, não só pelo seu gênero pictórico ser fácil de imitar, mas também pelo fato de, muitas vezes, o próprio efetuar alterações em obras já terminadas e de alterar a data de execução. Fato é que, em 1884, Rousseau obtém permissão para executar cópias no Museu do Louvre, no Musée de Luxembourg e nos palácios de Versailles e de Saint-Germain fruto da recomendação de Félix Clément que o motiva e incentiva a seguir o seu caminho no mundo artístico.

De modo a compensar o seu sucesso financeiro tardio, Rousseau moveu-se também noutros campos da arte, escrevendo peças de teatro (Une visite à l’Exposition de 1889), composições musicais (Clémence) e dramas (La vengeance d’une orpheline russe), mas vai ser no campo da pintura que a sua expressão artística vai ter maior impacto. As suas obras não são, no entanto, aceitas no salão oficial e, em 1885, expõe no Salon des refusés (salão dos recusados) e a partir de 1886 apresenta as suas pinturas regularmente no Salon des indépendants (salão dos independentes) onde se inserem as obras de artistas amadores e todas as obras rejeitadas, passíveis de suscitar escândalo. Em 1905 participa também do Salon d’Automne (salão de Outono) e com o seu crescente reconhecimento passa a organizar soirées no seu atelier onde se reúnem os mais destacados elementos do mundo artístico e intelectual de então.

A crítica e a ambiguidade

A reação à sua pintura é, no início, maioritariamente negativa. No entanto algumas vozes começam-se a pronunciar positivamente, chegando mesmo a comparar Rousseau com os pintores do Proto-Renascimento na Itália onde as noções de perspetiva espacial ainda estão no seu estado embrionário, mas que não deixam por isso de ter uma certa originalidade criativa. Já em 1886 Pissaro expressa a sua admiração ao ter contato com as suas obras no salão dos independentes e Gauguin que, juntamente com Alfred Jarry (escritor) e Guillaume Apollinaire (escritor, poeta e crítico), o vai denominar de artista naïf (ingênuo), dá a conhecer em 1890, do mesmo modo, uma crítica positiva acerca da obra “Eu-Próprio, Retrato-Paisagem”.

Esta simplicidade e aparente ingenuidade opõem-se, no entanto, à imagem de ambição que lhe é atribuída pelo público. Este seu caráter de personalidade ambígua espelha-se também na sua arte que, embora ingênua e infantil, retrata também por vezes uma certa malícia. Pode-se talvez pensar que Rousseau tenha encerrado em si um complexo de inferioridade devido às suas origens humildes e pelo fato de não ter tido acesso às mesmas oportunidades de um pintor acadêmico. Assim como ele se fecha em si próprio com o seu sofrimento interior, as suas pinturas são introvertidas e enigmáticas. Por outro lado, acredita firmemente nas suas capacidades e expressa tanto o seu orgulho como o seu desejo de se tornar o maior e o mais rico pintor francês, aproveitando todas as oportunidades que lhe surgem, mesmo quando é apelidado de palhaço. Já perto do final da sua vida, em 1908, conhece Picasso, que reconhece que a sua ingenuidade não é necessariamente sinônimo de inexistência de profissionalismo.

A temática

Inicialmente Rousseau é um pintor dos tempos livres, um autodidata apaixonado pela natureza e que a retrata como uma realidade simples, que lhe oferece o escape à vida quotidiana do burguês humilde. Dedica-se à paisagem, uma paisagem calma, bucólica, estranhamente ordenada e artificial, onde todos os elementos têm igual importância, onde não existe hierarquia formal.

Cigana a Dormir, 1897, Óleo sobre tela, 129,5 x 200,7 cm, Nova Iorque.

Com o tempo esta natureza torna-se cada vez mais complexa, uma forma de escape onde a fantasia e o fantástico ganham lugar num pano de fundo exótico. Para estas obras sobre a selva o pintor serve-se muitas vezes de inspiração em estufas e álbuns sobre fauna. Com a sua primeira obra sobre o tema, “Surpreendido!”, que vai ao encontro do gosto pelo exótico oriental sentido na Belle époque, Rousseau começa a ganhar destaque ao mesmo tempo que as suas obras adquirem uma nova qualidade, uma densidade labiríntica de elementos e tonalidades, um novo nível de comunhão entre fantasia e realidade, ameaça e agressividade, mistério e erotismo.

Na sua tipologia temática encontram-se também naturezas-mortas, quase como compêndios de botânica; o denominado retrato-paisagem, uma tipologia alegórica onde o contexto envolvente da figura remete simbolicamente para ela; retratos, muito mal aceitos pelo público pela representação desproporcionada e grotesca do corpo humano; e temas sociais como “A Guerra”, que revelam não só a sua motivação oferecida à arte popular como também o seu claro nacionalismo baseado em ideais sócio-revolucionários.

A Encantadora de Serpentes, 1907, Óleo sobre tela, 169 x 189,5 cm, Paris.

Por entre as diversas propostas formais do pós-impressionismo, a sua pintura surge despida de todo o requinte que caracteriza a pintura francesa do impressionismo. No caso de Rousseau a ilusão ótica não faz parte dos objetivos a alcançar, todos os avanços neste campo são simplesmente desrespeitados. A razão da obra é o objeto nela representado. Sobre a superfície plana da tela são colocados elementos desligados do seu contexto espacial, que flutuam, que são nada mais que reproduções exatas e detalhadas captadas pelo seu olhar livre de uma formação acadêmica artística, ou seja, liberto da pressão cultural. Rousseau capta a sua realidade empiricamente, deixando-se guiar pelo seu sentimento e pela sua noção própria de equilíbrio de composição. Sabe-se, no entanto, que tomou contato com a técnica da perspectiva ao ter copiado obras onde se dava uso à técnica, sendo possível que a sua arte fora destes cânones não tenha sido mais que uma decisão consciente da captação intuitiva da realidade, relegando para último plano o seu próprio racionalismo.

Rousseau faz assim uma representação frontal dos seus temas tentando ao máximo reproduzir o pormenor, fazendo quase que uma enumeração das características visíveis de determinado objeto, expondo-as claramente. Esta minuciosidade é reforçada pelo contorno preciso das figuras: todas elas são delimitadas e têm o seu espaço próprio conduzindo a que esta narração de características impregne a pintura de uma forte estaticidade e inércia. No fundo, este realismo extremado transforma os objetos em símbolos, que se vão afastando cada vez mais em direção ao abstracionismo, a uma realidade poética, vista através dos seus próprios olhos e da sua sensibilidade, suportando a sua convicção de que cada artista deve ser livre para obedecer à sua força criadora individual.

Do mesmo modo intuitivo, Rousseau utiliza a técnica que mais se adapta a determinado objeto, sendo que numa mesma obra as pinceladas podem variar de pontos, a superfícies de cor ou a linhas. Em especial, tem importância a relação entra as cores e como elas se contrastam ao longo da tela, de elemento para elemento. Em grande parte do seu repertório pictórico é evidente o gosto pelas combinações entre pretovermelhobranco e verde.

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